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O Labirinto do Cânone: O Que É Oficial na Cultura Pop e o Enigma de “A Múmia”

Mergulhar em franquias de sucesso hoje em dia exige quase um manual de instruções. Entre dezenas de filmes, séries, quadrinhos e jogos, uma palavra costuma ditar as regras do jogo nas discussões de internet e mesas de bar: o “cânone”. Embora o termo possa soar um tanto técnico e acadêmico, ele é basicamente a bússola que aponta o que é oficial dentro de um universo narrativo e o que não passa de uma realidade alternativa. Entender esse conceito se tornou um requisito básico para acompanhar sagas complexas do entretenimento. Um exemplo recente dessa exata necessidade de separar o oficial do independente é a confusão generalizada que tomou conta do público em torno do novo filme “A Múmia de Lee Cronin”.

A regra do jogo nas narrativas

A raiz da palavra vem do grego kanon, que se traduz diretamente como regra ou modelo. A Igreja Católica usava o termo originalmente para definir os textos reconhecidos como oficiais na Bíblia, separando-os dos escritos apócrifos. Com o passar do tempo, escritores e críticos literários pegaram o conceito emprestado e, inevitavelmente, a ideia desembarcou com força na cultura pop. A lógica sempre se manteve intacta. O cânone é a linha do tempo verdadeira, o material exato que os criadores, estúdios e detentores de direitos batem o martelo e dizem que realmente aconteceu.

Quando o oficial vira lenda

Na prática, definir o que pertence a uma história pode ser um processo cheio de reviravoltas. Star Wars é o caso mais famoso dessa dinâmica. Quando a Disney comprou a Lucasfilm, varreu anos de publicações impressas do cânone oficial, rebatizando esse universo expandido sob o selo Legends. Daquele ponto em diante, apenas os seis episódios clássicos e os projetos aprovados após a compra mantiveram o selo de canonicidade. Em franquias como Star Trek, várias séries e longas dividem a tela, mas nem todos habitam a mesma continuidade.

O debate ferve da mesma forma no universo das animações japonesas. Muitos animes dividem espaço com os mangás originais, adaptações para o cinema e episódios extras criados apenas para a TV. Esses famosos fillers existem para preencher a grade, sendo solenemente ignorados na linha do tempo da obra original. Por outro lado, o cinema de terror costuma ser mais amarrado. O universo de Invocação do Mal consegue costurar de forma eficiente seus longas principais e os spin-offs de personagens paralelos, como a boneca Annabelle, dentro de um mesmo pacote canônico. Obras não-canônicas, portanto, são aquelas que correm por fora da via principal, existindo sem afetar o rumo da história.

O caso de “A Múmia de Lee Cronin”

Toda essa bagagem teórica sobre o que faz parte ou não de uma franquia ajuda a explicar a dor de cabeça recente dos cinéfilos. Tem filmes que já causam um curto-circuito pelo próprio título, e “A Múmia de Lee Cronin”, com estreia marcada para 17 de abril nos cinemas, é o sintoma perfeito do caos narrativo. Pelo nome, a intuição logo sugere alguma ligação com a icônica marca que já teve várias encarnações nas telonas. O problema surge quando o trailer não exibe absolutamente nenhum parentesco visual ou temático com nada do que o público já assistiu.

Cadê o Brendan Fraser?

Vamos direto aos fatos. Brendan Fraser não está no novo filme, tampouco a produção tem qualquer resquício da aventura de 1999 ou de suas sequências. O tropeço do público faz tanto sentido que a produtora Blumhouse transformou a confusão em meme. Em abril, a empresa publicou religiosamente a mesma mensagem em letras garrafais nas redes sociais durante dias, avisando que Brendan Fraser não estava no projeto de Lee Cronin. A expectativa dos fãs era justificada, já que um quarto longa estrelado pelo ator chegou a ser anunciado no ano passado. Contudo, essa sequência específica sequer começou a ser filmada e tem previsão de lançamento agendada apenas para maio de 2028. A versão de Cronin é um projeto isolado.

Esqueça o Dark Universe

Sem Fraser na jogada, a aposta seguinte seria uma continuação da versão de 2017 capitaneada por Tom Cruise, certo? Mais uma vez, a resposta é não. O projeto de Cruise tinha a árdua missão de dar o pontapé inicial no Dark Universe, uma tentativa da Universal Pictures de espelhar a fórmula da Marvel usando seus monstros clássicos. A ideia afundou de forma espetacular logo na largada e o universo compartilhado foi engavetado sem cerimônias. Hoje, o nome sobrevive apenas como um setor temático no parque Epic Universe.

Um monstro fora do estúdio

O peso do nome “A Múmia” carrega a herança da Universal desde o clássico de 1932 estrelado por Boris Karloff, figurando na prateleira de elite ao lado de figuras como Drácula, O Homem Invisível, O Lobisomem e Frankenstein. Após o fim precipitado do Dark Universe, a Universal abandonou a ideia de uma continuidade interligada, mas seguiu lançando releituras modernas desses monstros em parceria com a Blumhouse, a exemplo de “O Homem Invisível” (2020) com Elisabeth Moss e o vindouro “Lobisomem” (2025) com Julia Garner.

É exatamente aí que o tabuleiro de “A Múmia” de Cronin bagunça de vez a cabeça do espectador. O novo filme também tem o dedo da Blumhouse na produção. A pegadinha na indústria é que a distribuição ficou a cargo da Warner Bros, e não da Universal. Esse detalhe burocrático remove o longa tecnicamente da linhagem dos Monstros da Universal, rompendo qualquer possibilidade de crossover com as tramas de Moss ou Garner. E caso o nome do diretor no título principal faça parecer que você pulou alguma aula de cultura pop, relaxe. Ter “Lee Cronin” como chamariz é só mais um detalhe curioso de um lançamento desprendido de amarras antigas, pronto para ignorar cânones passados e tentar ditar suas próprias regras no cinema.